"Sou filha de dois professores. Meus pais são paulistas, mas
migraram para Rondônia na década de 1980, época em que o Estado sofreu seu boom
populacional, recebendo pessoas de diversos locais do Brasil. Por conta disso,
Rondônia é hoje uma mistura de culturas, falares e costumes. Eu faço parte
então, de uma geração de rondonienses, filhos dos pioneiros que ajudaram a
construir esse Estado recente, e assim, sou também um pedaço dessa mistura
brasileira.
Uso o “tu” e o “você”, gosto de chimarrão, acarajé e de uma boa cuia de tacacá. Gosto de macaxeira, mas posso chamar de mandioca. Dirigindo pela cidade, já parei no sinal, no semáforo, no farol e no sinaleiro. Durante a época de festas juninas adoro comer mungunzá, e descobrir que muitos o chamam de canjica (o que geralmente causa uma confusão!).
Em meio a tantas misturas, sempre gostei de parar, sentar e ouvir a história dessas pessoas. Histórias de vinda e de vida. Tenho certeza que foi aí que o jornalismo começou a fazer parte da minha vida.
Penso que o jornalismo é contar histórias. De uma pessoa, de
um lugar, de um acontecimento. E desde que o mundo é mundo, as histórias nos
fazem conhecer o novo, refletir sobre um fato, descobrir o inusitado,
redescobrir algo do passado, se colocar no lugar do outro... O jornalismo, ou o
“contar histórias”, é utilidade pública.
Descobri o que gostava, o que amava, o que queria “fazer da vida”. Mas as dúvidas vieram juntas. Será que eu devo? Será que é o melhor?
Dentro de um histórico familiar humilde em sua raiz, com a presença de situações de extremas privações, quem recebe mais e melhor formação, mais e melhores oportunidades de aprendizado, tende a ser mais cobrado. Todas as minhas dúvidas na escolha da carreira existiram principalmente pelo medo de desagradar e de decepcionar àqueles que eu mais queria deixar orgulhosos. Mas foi dentro de casa também que aprendi que deveria viver a minha vida e não a vida que queriam para mim (palavras da minha mãe).
As escolhas foram feitas. Os caminhos foram duros, mas divertidos. E é inexplicável a sensação de ter o “canudo mágico” na mão. Lembro de ter me perguntado: “será que agora tenho super poderes?”, “será que agora posso mudar o mundo?”
O mundo que estava (e ainda está) dentro de Rondônia, passou a ser pequeno. É a hora de descobrir o restante dele. As misturas, culturas e falares, formaram a pessoa que sou hoje. Viajei milhas sem sair do lugar. Agora, estou pronta para uma nova etapa.
De acordo com uma lenda da minha região, quem bebe a água do rio Madeira, rio que banha Porto Velho, sempre volta. E eu voltarei sempre. Mas, mais que isso, levarei comigo toda a sabedoria e as histórias contadas pelos meus companheiros do Norte, os responsáveis por uma das mais lindas tramas do nosso país.
Espero absorver todo o conhecimento e as novas experiências que vêm pela frente, porque, no final das contas, acredito que o que vale mesmo são as viagens que a vida nos proporciona, com tudo que elas podem nos ofertar. As bagagens estão prontas e, por mim, podemos partir imediatamente."
De fato José Carlos Sá tem razão. Um excelente texto, de uma excelente pessoa, falando de um lugar excelente!
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